5. BRASIL 31.10.12

1. ITLIA INVESTIGA JOBIM
2. OLHOS NOS OLHOS, QUERO VER O QUE VOC DIZ...
3. O FIM DA FARSA
4. QUADRILHEIROS
5. HADDAD FURA FILA NO PT

1. ITLIA INVESTIGA JOBIM
Ex-ministro da Defesa Nelson Jobim  apontado como intermedirio em escndalo de compra de embarcaes para a Marinha
Alan Rodrigues


 COMISSIONADO - Ex-ministro Nelson Jobim teria levado, segundo a denncia, 11% de comisso
 
Na ltima semana, um suposto esquema bilionrio de corrupo envolvendo o nome do ex-ministro da Defesa brasileira Nelson Jobim e polticos italianos ganhou destaque na imprensa europeia. De acordo com a denncia, Jobim seria o elo entre o ex-ministro de Desenvolvimento Econmico da Itlia, no governo de Silvio Berlusconi, Claudio Scajola, e o governo brasileiro na compra de 11 embarcaes para a Marinha do Brasil  cinco fragatas, cinco escoltas e um supernavio de apoio. Ainda segundo a acusao, as cifras do negcio poderiam chegar a 5 bilhes de euros. Aproximadamente 11% desse valor seria destinado a Scajola, Massimo Nicolucci (porta-voz do ministro) e Jobim, conforme publicaram na quinta-feira 25 os jornais Corriere della Sera e La Repubblica. Scajola no nega que trabalhou para viabilizar o negcio e tampouco que conhecia o ministro Jobim.  verdade que encontrei trs vezes o ministro da Defesa Jobim. Na Itlia, havia crise e tentei vender as embarcaes. Era meu dever ajudar o estaleiro Fincantieri, afirmou Scajola.
 
A investigao, que est a cargo do Ministrio Pblico da cidade de Npoles, chegou ao nome de Nelson Jobim depois do interrogatrio de Lorenzo Borgoni, o antigo responsvel pelas relaes institucionais da empresa Finmeccanica. No depoimento, Borgoni falou sobre uma possvel amizade entre Jobim e Scajola. O canal entre a Itlia e o Brasil era o ministro Scajola, que tinha uma boa relao com o ento ministro da Defesa Nelson Jobim, disse Borgoni. Documentos em poder dos promotores italianos, segundo a imprensa daquele pas, afirmam que a propina seria paga por meio de um contrato estipulado com uma agncia no Brasil e entregue a um empregado que fosse indicado pelo ministro Jobim. No entanto, o negcio no prosperou. Nos bastidores da poltica italiana, comenta-se que as tratativas entre os dois governos no foram para a frente depois do rumoroso caso envolvendo Cesare Battisti, o ex-guerrilheiro italiano exilado no Brasil. 
 
Poltico com trnsito fcil pela Esplanada dos Ministrios, Nelson Jobim j ocupou os cargos de ministro da Justia, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, chefe da pasta da Defesa nas administraes de Lula e Dilma e ex-ministro do Supremo Tribunal Federal. Ele nega as acusaes. Nunca chegamos a falar de um tema como esse que na Itlia definiram de comisso. O projeto ProSuper, que previa a aquisio por parte da Marinha brasileira de uma fragata com a transferncia de tecnologia, alm de navios de logstica e transporte de combustvel, foi cancelado, explicou o ex-ministro. Jobim, no entanto, no nega ter estado em pelo menos duas oportunidades com Scajola.


2. OLHOS NOS OLHOS, QUERO VER O QUE VOC DIZ...
O tucano Acio Neves e o socialista Eduardo Campos esto cada vez mais prximos, mas uma aliana para as eleies de 2014 ainda depender das escolhas polticas do PSB 
Claudio Dantas Sequeira

 ALIANA  VISTA? - Acio acredita que o caminho mais curto para o Palcio do Planalto passa pela unio com Eduardo Campos 
 
Poucos meses antes de morrer, em agosto de 2005, o ex-governador Miguel Arraes enviou o neto Eduardo Campos a Belo Horizonte para sondar o ento governador de Minas, Acio Neves, a respeito de um projeto inusitado. Arraes acalentava o sonho de montar uma chapa presidencial em que Acio e Campos aparecessem juntos. Como no acreditava na viabilidade de uma aliana com os tucanos, o poltico veterano sugeriu que o neto de seu amigo Tancredo Neves deixasse o PSDB para concorrer  Presidncia da Repblica pelo PSB como cabea de chapa. O vice seria o prprio Campos, ento deputado federal. Cauteloso, Acio recusou o convite educadamente. Mas, depois de sete anos alimentando a ideia, resolveu transform-la em espcie de bandeira pessoal. Ainda que trocar de partido no seja uma opo, Acio cr que o caminho mais curto para a oposio voltar ao Palcio do Planalto passa pela aliana com Eduardo Campos.
 
Na ltima semana, Acio se dedicou exclusivamente a dar forma a essa parceria. Coloquei mais 40 no peito do que 45, disse Acio em Campinas, numa referncia aos nmeros respectivamente de PSB e PSDB. O mineiro desembarcou em Campinas para apoiar a campanha do candidato do PSB Jonas Donizette. Na chapa encabeada pelo PSB, o vice  o tucano Henrique Magalhes. Eles concorrem com o petista Marcio Pochmann, que tem como vice Adriana Flosi (PSD). No primeiro turno, tucanos e socialistas tambm haviam se unido contra o PT no Recife e em Belo Horizonte. Na capital pernambucana, conseguiram eleger o socialista Geraldo Julio. Em BH, asseguraram a reeleio de Marcio Lacerda (PSB). No segundo turno, o PSDB de Acio e o PSB de Eduardo Campos tambm esto juntos contra candidatos governistas em cidades importantes como Manaus e Uberaba.

Apesar da parceria celebrada nas eleies municipais, o entusiasmo demonstrado pelo senador tucano ainda contrasta com a reticncia de Eduardo Campos. Ningum sabe exatamente o que se passa na cabea do governador de Pernambuco e presidente do PSB. Como na letra de Chico Buarque, encerrada a disputa municipal, Acio Neves quer olhar nos olhos azuis do amigo e ouvi-lo sobre o futuro, especialmente seus planos para 2014. E no  o nico. Em paralelo ao movimento de Campos, no Palcio do Planalto, a presidenta Dilma Rousseff j se prepara para renegociar o espao do PSB na Esplanada dos Ministrios. Hoje, a legenda tem apenas a Secretaria de Portos e o Ministrio da Integrao. ISTO apurou que j est nas mos do chefe de gabinete da Presidncia, Giles Azevedo, a lista das exigncias para a manuteno do apoio dos socialistas ao governo. Uma fatura alta, que inclui os ministrios das Cidades e dos Transportes, alm de duas diretorias da Conab (Financeira e Abastecimento) e o comando da Codevasf, estatal responsvel pelo desenvolvimento das bacias dos rios So Francisco e Parnaba. O governo s aceita ceder DNIT e Codevasf, e avalia se entrega ou no a pasta das Cidades.
 
Ningum sabe ao certo qual ser a posio de Campos, que nega oficialmente qualquer cobrana por mais espao. Publicamente, ele critica setores do PT, defende o dilogo com a oposio, mas reafirma o comprometimento com o projeto petista e a reeleio de Dilma Rousseff. Sabe que o PSB deve seu crescimento  aliana com o PT desde o incio do governo Lula. A direita no tem alternativas, no sabe fazer oposio. Nosso empenho  fortalecer a presidenta Dilma, afirma o vice-presidente do PSB, Roberto Amaral. O governador de Pernambuco, porm, se sente tentado a realizar o sonho do av. Politicamente, pode ser uma jogada com boas chances de xito. Para o cientista poltico Leonardo Barreto, da UnB, uma vez unidos no plano nacional, tucanos e socialistas poderiam virar polo de atrao para setores do PMDB. Campos levaria o grupo de Jarbas Vasconcelos (PE), enquanto Acio traria consigo a tropa de Srgio Cabral. O senador e o governador do Rio so amigos de adolescncia, passavam as frias em So Joo del Rei (RJ), jogavam bola e at viajaram para o Festival Internacional da Juventude em Moscou, em 1985. Cabral foi casado com uma prima de Acio e os trs filhos mais velhos tm sobrenome Neves Cabral. Resta saber o que os olhos de Eduardo Campos diro at 2014. 


3. O FIM DA FARSA
Biografia do guerrilheiro Carlos Marighella desmonta a verso oficial do assassinato do militante comunista e confirma reportagem de ISTO
Alan Rodrigues

PGINAS HISTRICAS - Dividido em 43 captulos, o livro-reportagem discorre sobre os tropeos e triunfos do ex-lder da ALN
 
O regime militar instalado no Brasil em 1964 e que se manteve no poder por mais de 20 anos deixou um saldo macabro de 475 mortos  163 deles ainda desaparecidos. Entre os militantes assassinados nos anos de chumbo est o guerrilheiro Carlos Marighella, lder da Ao Libertadora Nacional (ALN), cuja histria da morte, em 1969, sempre esteve envolta em mistrios. A verso oficial d conta de que o guerrilheiro foi abatido dentro de um automvel depois de sacar uma arma e resistir  priso. Logo em seguida, ainda de acordo com essa verso, teria acontecido um tiroteio entre as foras pblicas e seguranas da ALN, que resultou na morte de outras duas pessoas.
 
Agora, depois de mais de quatro dcadas, o jornalista Mrio Magalhes contraria tudo o que j foi publicado sobre o caso. Em Marighella, o Guerrilheiro Que Incendiou o Mundo (Companhia das Letras), o autor desmonta a tese oficial ao revelar que Marighella estava desarmado ao ser morto dentro do carro. O jornalista ainda conta na publicao que a troca de tiros entre os policiais e os guerrilheiros nunca aconteceu, pois Marighella estava sozinho. Entre as 588 pginas da obra, Magalhes revela que o ex-deputado comunista no andava armado. Tampouco escoltado por seguranas. Foi fogo amigo, afirma Magalhes no livro.

EXCLUSIVO - Em reportagem do dia 7 de maro deste ano - edio 2208 -, ISTO desmanchou a tese oficial sobre a morte de Marighella 
 
Sua convico est amparada em uma investigao rigorosa com 256 pessoas entrevistadas em nove anos de pesquisa. Ao desmontar a farsa da morte de Marighella, o livro confirma reportagem de ISTO, publicada em maro, que revelou o teatro montado pelos policiais para esconder como de fato foi assassinado o lder da ALN. Eu vi os policiais colocando o corpo do Marighella no banco de trs do carro, afirmou o fotgrafo Srgio Vital Jorge.
 
Temido por sua valentia e coragem, Marighella era considerado o inimigo nmero 1 dos militares. Perseguido pelas foras de represso nacional e monitorado tanto pela agncia de inteligncia americana CIA como pela russa KGB, Mariga, como era tratado pelos amigos, foi um dos mais destacados revolucionrios do sculo XX. Os policiais tratavam-no como o Che Guevara nacional. Entre as passagens da vida do guerrilheiro contadas pelo autor, chama a ateno um paradoxo: Marighella no acreditava no triunfo da guerrilha na cidade, mas, sim, que as aes urbanas estavam fadadas ao fracasso. Pouco antes da morte, ele preparava-se para ir para o meio rural, diz Magalhes.

"Chequei obsessivamente cada verso. O livro no promove o personagem principal da histria" -  Mrio Magalhes, autor do livro
 
Para esquadrinhar os passos de Marighella, o autor debruou-se sobre mais de 600 ttulos, alm de garimpar material em 32 arquivos pblicos e privados espalhados pelo Pas. Em um dos 43 captulos, ele mostra, por exemplo, que o chefe da ALN teve que se tratar com remdios e sesses de anlise quando se tocou de que o lder russo Josef Stalin era um engodo. A publicao revela tambm o lado romntico do guerrilheiro, a partir dos conflitos da paixo, cimes e agruras de uma vida em sobressalto. Chequei obsessivamente cada verso, sabedor das traies e idiossincrasias da memria, afirma Magalhes. O livro no promove o personagem principal da histria, ou  um libelo de oposio a ele. O trabalho  uma reportagem que escrutina seus triunfos e tropeos, grandezas e pequenezas, os altos e baixos prprios da espcie humana, diz Magalhes.

Leia um trecho do livro:
37.  melhor ser alegre que ser triste

Ateno: est no ar a Rdio Libertadora. De qualquer parte do Brasil, para os patriotas de toda parte. Rdio clandestina da revoluo. O dever de todo revolucionrio  fazer a revoluo. Abaixo a ditadura militar.

Em vez das exclamaes implcitas na mensagem, o gravador de rolo capta a voz feminina com a dico contida, e no de pregoeiro.  proposital: se falar com alguns decibis a mais, Iara Xavier Pereira arrisca desvendar  vizinhana o segredo mais bem guardado dos oponentes armados da ditadura: o paradeiro do inimigo pblico nmero um.

Ouam Carlos Marighella desmascarando a provocao da carta falsa a dom Agnelo, cardeal de So Paulo, anuncia a garota de dezessete anos.

O atentado  obra da direita, ele acusa, lendo o script que redigiu. Seus autores devem ser procurados entre os homens da ditadura militar que inspiram assassinatos como o do padre Henrique Pereira Neto, da equipe de dom Hlder Cmara no Nordeste. Nossa posio ante a Igreja  de absoluto respeito  liberdade religiosa e pela completa separao entre a Igreja e o Estado.

Enquanto o guerrilheiro d o seu recado, um motor de carro ou motocicleta ronca defronte  casinha branca do subrbio de Todos os Santos, onde ele se refugia nesse agosto de 1969. Um tom acima da locutora, o foragido pronuncia fachismo  antiga, e no fascismo, e jamais se promove com o ttulo de comandante. Seu sotaque baiano contrasta com o da carioca quatro dcadas mais jovem, que introduz o Correspondente Libertador:

Ateno: as gravaes em fita das transmisses da Rdio Libertadora devem ser ligadas aos sistemas de alto-falantes dos bairros e subrbios e irradiadas para o povo, mesmo que para isso tenhamos de empregar a mo armada.

Na Casa de Deteno do Rio de Janeiro, Marighella vivenciou em 1936 e 1937 a distrao dos presos polticos com a Rdio Libertadora, cuja reencarnao homnima ele tenta estabelecer como porta-voz guerrilheira. J disps de microfones potentes, como o da Constituinte de 1946. Nos novos tempos, s na marra para ser ouvido. Desde abril de 1969, no incio das sesses improvisadas de gravao com Iara, ele tenciona reverberar os manifestos da aln nas praas pblicas. O auge do arrojo foi dias atrs, na tomada da Rdio Nacional, que Marighella festeja em um trecho, alertando para riscos excessivos:

Temos avanado com audcia e com cautela. No desafiamos o inimigo e s agimos quando estamos perto do xito. No travamos combate em campo raso. [...] Reconhecemos que somos infinitamente mais fracos. 

Nem por isso abaixam a cabea, e a organizao se tonifica. Na segunda quinzena de agosto de 1969, ele e Iara intercalam apelos com vinhetas instrumentais. Todas pertencem a um disco do Milton Banana Trio que toca na vitrolinha da sala. Das doze faixas, Marighella seleciona quatro. A mais executada  Est chegando a hora (Cielito lindo, no original mexicano), cuja verso jazzstica evoca os versos o dia j vem raiando, meu bem, eu tenho que ir embora. H Roda-viva, de Chico Buarque (Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu). E Vesti azul, de Nonato Buzar, hit consagrado por Wilson Simonal (Vesti azul, minha sorte ento mudou). Por ltimo, uma espcie de epitfio acidental, ainda que com o long-play exclusivo de melodias, sem as letras: Samba da bno, de Vinicius de Moraes e Baden Powell, o da profisso de f  melhor ser alegre que ser triste, a alegria  a melhor coisa que existe,  assim como a luz no corao. Antes e depois das msicas, Iara divulga com acento intimista o manuscrito incendirio de Marighella:

A Ao Libertadora Nacional organiza a guerrilha, o terrorismo e os assaltos, no combate sem trgua que faz  ditadura militar e ao imperialismo dos Estados Unidos. [...] O lema da Ao Libertadora Nacional  gta. Quer dizer guerrilha, terrorismo e assalto. G-t-a, g-t-a, g-t-a...

O mesmo Marighella exorciza o lxico assacado por seus perseguidores:

A polcia nos acusa de terroristas e assaltantes, mas no somos outra coisa seno revolucionrios que lutam  mo armada contra a atual ditadura militar brasileira e o imperialismo norte-americano.

A quimera das emisses guerrilheiras no vingaria, embora as fitas de Marighella tenham viajado, como uma que alcanou o Cear, com sambas de Martinho da Vila entre as alocues.

As duas janelas da casa ficam sempre fechadas, no s durante as gravaes. Adentra-se na residncia humilde passando por uma portinhola escoltada por um muro baixo de pedra e ferro, vencendo um pequeno ptio e caminhando por um corredor  direita. Ali se abre a porta, que d para a sala, onde Marighella l e escreve sobre uma mesa. O imvel sem rea livre nos fundos e com muros laterais espichados foi alugado por uma tia de Iara, irm de sua me, Zilda. A menina conheceu o ilustre camarada dos pais quando tinha por volta de trs anos. No se esqueceria de sua risada gostosa, do fundo da alma. Marighella s ensaia dispensar o humor ao encrencar com as minissaias de Iara:
 

T faltando pano!

O zelo paternal com a filha mulher que ele no teve permaneceu quando a aluna do Colgio Pedro ii ingressou na organizao. J que Iara insiste em seguir para Cuba, onde os irmos Iuri e Alex treinam, Marighella sugere que se dedique ao ensino superior regular da ilha, pois a almejada revoluo no Brasil depender de profissionais qualificados. A fim de afast-la das lies armadas, argumenta com a escoliose que a acomete. A adolescente bate p e decola para o curso de guerrilha na virada de agosto para setembro. Antes, encomenda roupas  costureira, e o Preto, como ela e muitos companheiros chamam Marighella, inventa:

Quem anda de minissaia  at preso em Cuba.

A bainha de um vestido cai at pouco acima do joelho, demasiado tecido para a moda vigente. Tanto que o secundarista Aldo de S Brito provoca:

Iara vai para o convento, vai ser freira. 
 
Ela reproduz fitas cassete na sala do aparelho de Todos os Santos quando repara outro movimento na sala apertada: ao embalo de uma cano do rdio, Zilda e Marighella danam juntinhos.

INFORMAES:
Na segunda-feira 29, ser realizado o lanamento do livro Marighella, o Guerrilheiro Que Incendiou o Mundo, s 19h30, na loja da Companhia das Letras no Conjunto Nacional (Avenida Paulista, 2073), em So Paulo.
 
Na tera-feira 30, o autor  Mrio Magalhes dar um curso sobre o Marighella na loja da Companhia das Letras, no Conjunto Nacional .


4. QUADRILHEIROS
Condenados pelo STF por formao de quadrilha, Dirceu, Delbio, Marcos Valrio e Genoino agora lutam para tentar sobreviver financeira e politicamente
Izabelle Torres

Na segunda-feira 22, aps 39 sesses, os ministros do Supremo Tribunal Federal confirmaram a denncia da Procuradoria-Geral da Repblica ao condenar o ex-ministro Jos Dirceu, o publicitrio Marcos Valrio, o ex-presidente do PT Jos Genoino e o ex-tesoureiro do partido Delbio Soares pelo crime de formao de quadrilha. No bastasse serem enquadrados como quadrilheiros pelo STF, os rus do ncleo poltico petista sofreram outro revs na ltima semana. O anncio, na quarta-feira 24, da pena de 40 anos de priso imposta a Marcos Valrio mostrou que a corte ser rigorosa com os demais rus condenados no processo do mensalo, o que fatalmente levar muitos outros deles para a priso. Como os critrios utilizados para punir o empresrio serviro de parmetro, tanto Dirceu como Genoino e Delbio j avaliam os estragos que uma possvel condenao em regime fechado trar.
 
Conforme apurou ISTO, a preocupao dos rus com o futuro passa pela sobrevivncia financeira e poltica. Hoje atuando como consultor, Dirceu, por exemplo, acredita que ir perder clientes internacionais, at ento dispostos a pagar uma fortuna por seus servios. Nos prximos dias, o ex-ministro pretende concluir trabalhos j iniciados. Mas no tem previso de novos contratos. Outro petista condenado, Jos Genoino deixou o cargo de assessor especial do Ministrio da Defesa e amigos prximos temem pela sua sade. Ao menos do ponto de vista financeiro Genoino provavelmente no ser abalado. Seus seis mandatos de deputado federal lhe garantiro uma aposentadoria de R$ 19 mil paga pela Cmara dos Deputados. Delbio, por sua vez, diz oficialmente que seguir sobrevivendo da imobiliria virtual que abriu.

Na seara poltica, os rus petistas montam estratgias para tentar disseminar a imagem de que so pessoas injustiadas, punidas em nome de uma causa. Mesmo que esse discurso seja aceito apenas entre a militncia petista e alguns amigos da poca da ditadura, eles sabem que resta pouco a fazer.  preciso buscar a redeno, nem que seja dentro dos grupos que favoreceram, diz um cardeal petista. Nos ltimos dias, a estratgia comeou a ser posta em prtica. Diante da iminncia da priso, Dirceu e Genoino comearam a frequentar eventos de apoio a eles organizados por correligionrios. Tambm j estudam os termos de uma carta aberta para ser divulgada na internet logo que as penas forem definidas. Os textos sero elaborados com a ajuda dos advogados e seguiro o padro do memorando que j vinha sendo divulgado por Delbio Soares, o ex-tesoureiro do partido, antes do incio do julgamento. A ideia dos antigos caciques do governo Lula  transformar a ida para a cadeia em um ato poltico e dar publicidade s reaes dos crticos  deciso do STF.
 
Na semana passada, Dirceu foi recebido com festa por petistas de Osasco, em um jantar organizado pelo prefeito Emdio de Souza (PT). Ao lembrar sua conduta como guerrilheiro e sua fidelidade ao partido, o ex-ministro recebeu apoio dos convidados e se mostrou resignado. Sorriu algumas vezes, mas era impossvel disfarar o semblante tenso. Houve alguns momentos em que parecia areo, como se estivesse ausente, contam alguns dos comensais presentes ao evento. A iniciativa do prefeito de Osasco foi elogiada pela cpula nacional do partido e pelo ex-presidente Lula. Somos amigos e foi um encontro entre amigos, resumiu Souza. Dias antes, Dirceu e Genoino j haviam participado de um almoo com um grupo de colegas de 1968, que inclua escritores e militantes sociais.

Apesar das buscas por apoio, o cenrio para os comandantes do mensalo  sombrio. Dirceu, Genoino e Delbio so corrus de Marcos Valrio nos crimes de formao de quadrilha e corrupo ativa. A soma das penas pelos dois delitos somou dez anos e sete meses para o empresrio e deve ser a mesma para a antiga e poderosa cpula petista. Valrio tambm ter de pagar R$ 2,8 milhes de multa aos cofres pblicos, alm da possibilidade de ser condenado a devolver  Unio os R$ 37 milhes distribudos aos parlamentares.
 
O que pode servir de alento para o ncleo petista, na atual circunstncia,  a possibilidade de os personagens do mensalo terem uma sobrevida antes da execuo das penas. O julgamento ficar suspenso por dez dias para que o relator Joaquim Barbosa faa tratamento de coluna em Dsseldorf, na Alemanha. Em novembro, os ministros devem acabar de definir as punies, e a priso depender da publicao do acrdo, que  o resumo da deciso. A elaborao desse texto final do julgamento  outro obstculo burocrtico que pode favorecer os rus. Em mdia, os ministros levam trs meses para revisar os votos e liber-los para publicao. Desta vez, a expectativa  que esse processo leve cinco meses. Nos bastidores, h preocupao com o tempo que o revisor Ricardo Lewandowski levar para terminar o trabalho. O prazo at a execuo das penas ser ampliado ainda mais com a sequncia de recursos que os advogados dos condenados j comearam a preparar. Vamos esgotar o direito de defesa que o ru faz jus, apresentando embargos, admite Luiz Fernando Pacheco, que defende Genoino.

Sob a tica da sobrevivncia poltica, outra notcia deixou os petistas condenados menos preocupados. Eles j foram informados pela cpula do PT que as chances de expulso da legenda so nulas. Apesar de o estatuto do partido prever a sada de rus condenados em ltima instncia e que tenham praticado crimes infamantes, o presidente da legenda, Rui Falco, deve se pronunciar ao final do julgamento para explicar que esse no seria o caso dos mensaleiros. Por incrvel que possa parecer, no entendimento dos petistas, usar dinheiro pblico do Fundo Visanet, do Banco do Brasil, e fazer emprstimos fraudulentos para comprar apoio de parlamentares ao governo no seria uma conduta reprovada pela sociedade.


5. HADDAD FURA FILA NO PT
Para se tornar candidato a prefeito de So Paulo, Fernando Haddad precisou desbancar outros nomes de peso do PT. Confirmada a vitria nas urnas, ele sai da eleio como uma das principais lideranas do partido 
Pedro Marcondes de Moura

CARA NOVA - Ele foi escolhido por Lula para mudar o partido em So Paulo
 
A apurao das urnas da capital paulista, no domingo 28, deve transformar o ex-ministro da Educao Fernando Haddad na mais nova estrela do Partido dos Trabalhadores. Mantida a tendncia das pesquisas de inteno de voto que colocam o candidato petista  Prefeitura de So Paulo com uma vantagem de 14 a 20 pontos  frente do tucano Jos Serra, Haddad sair da eleio como uma das lideranas mais importantes da legenda no principal colgio eleitoral do Brasil. Escolhido como candidato pelo ex-presidente Lula, que recomendava uma cara nova para o PT paulista, Haddad torna-se automaticamente uma figura de proa do partido nas negociaes polticas para 2014. Ele vai administrar um oramento anual de R$ 42 bilhes e uma cidade com 8,6 milhes de eleitores. Com essa posio, ser uma voz poderosa tanto na estratgia do PT de reeleger Dilma Rousseff quanto na de tentar colocar fim a duas dcadas de comando do PSDB no governo do Estado. Com o mensalo, o PT derrubou uma gerao de polticos, principalmente em So Paulo. Haddad representa um novo grupo que veio para ocupar esse espao. So Paulo  a maior vitrine do Pas. Naturalmente, quem consegue xito na administrao da cidade vira um jogador importante no cenrio nacional e se cacifa para voos mais altos, avalia o cientista poltico Leonardo Barreto, da Universidade de Braslia (UnB).
 
H pouco mais de um ano o cenrio poltico se configurava bem diferente para Haddad. O ex-ministro da Educao era considerado por seus pares apenas a quarta fora eleitoral do partido em So Paulo.  sua frente, apareciam como potenciais candidatos a prefeito de So Paulo pelo menos outras trs personalidades da legenda: Aloizio Mercadante, Marta Suplicy e Arlindo Chinaglia. Houve tambm, no partido, quem trabalhasse para emplacar como candidato o ministro da Sade, Alexandre Padilha. Para conseguir oficializar a candidatura de Haddad, foi necessrio o ex-presidente Luiz Incio Lula da Silva usar o peso de sua liderana no PT e quase que impor, a contragosto da maioria, um nome ento desconhecido do pblico e da militncia, que largava nas pesquisas com apenas 3% das intenes de voto. 

OS PRETERIDOS - Apesar do prestgio que os mantm no governo federal, Marta Suplicy e Mercadante tm um novo parceiro

Apesar de se deparar, agora, com um quadro completamente distinto daquele que se desenhava no incio da campanha, Haddad manteve, na reta final do pleito, o mesmo comportamento adotado quando poucos acreditavam em seu triunfo nas urnas. Ele mantm a serenidade e a prudncia, como se no estivesse prestes a ganhar a eleio, disse um dos integrantes da campanha petista. O ltimo candidato  Prefeitura de So Paulo que sentou na cadeira antes da hora  tucano. E a gente sabe o que aconteceu, lembrou Lula, na ltima semana, numa cutucada em Fernando Henrique Cardoso, que na disputa municipal de 1985 posou para uma foto na cadeira de prefeito antes da eleio e saiu derrotado por Jnio Quadros. Para no correr esse risco, Haddad seguiu com sua agenda intensiva. At o dia da eleio, concedeu cerca de 120 entrevistas coletivas, falou 50 vezes com exclusividade a jornais e rdios, fez 20 aparies em programas de tev e participou de sete debates desde o primeiro turno. Se dependesse de pesquisas, eu no estaria no segundo turno, declarou o candidato em evento com profissionais de sade na tera-feira 23.
 
Em contraste com a cautela adotada por Haddad e Lula, correntes petistas e partidos aliados, como PSB, PCdoB e PMDB, j deflagraram uma acirrada disputa por espaos na gesto municipal. Temem que o ex-ministro da Educao d preferncia a nomes com perfis mais tcnicos, a exemplo dele prprio, para as principias secretarias do municpio. Entre os cotados para ganhar mais poder no partido junto com Haddad esto os parlamentares federais Jilmar Tatto e Carlos Zarattini, o deputado estadual Simo Pedro, o vereador Carlos Neder, a vice de chapa Ndia Campeo (PCdoB) e Marianne Pinotti (PMDB). Todos tm boas chances de assumir cargos no primeiro escalo. Nos bastidores, porm, o ex-presidente Lula e Haddad, tm agido para conter a sanha dos companheiros. Nesta hora, todo mundo tenta se apresentar para assumir um cargo ou indicar algum. S que este no  o melhor momento para picuinha ou esse tipo de presso, diz um dos coordenadores da campanha. As vagas nunca daro conta dos pedidos. E ainda tem que se levar em conta a composio com outras foras para conseguir maioria na Cmara, diz. O que  dado como certo por dirigentes do PT  que aqueles que ficaram ao lado do candidato nos momentos em que a vitria parecia invivel  a chamada turma dos 3%  levaro vantagem.

